Antes e depois da tristeza

A tristeza não é natural, fisiológica, adaptativa ou tem qualquer utilidade.

 

Os animais não sentem tristeza e antes do Homem civilizar-se e reprimir-se, para sobreviver socialmente, não havia tristeza. Ela foi culturalmente naturalizada, incorporada como um sentimento enraizado em questões igualmente naturalizadas como o apego ou o luto, a raiva contida, o medo ou a insegurança, a privação de necessidades fisiológicas (água, alimento, sexo, luz), a privação da liberdade e outras relacionadas a choques culturais e ideológicos.

A tristeza pode evoluir para uma depressão ou ser desviada para um comportamento compulsivo, que surge como forma de distrair ou consolar o ego pelas suas frustrações. Por não ter controle sobre o que gostaria de ter, a pessoa assume controle (ou descontrole) neurótico sobre outras coisas.

Os alvos podem ser seu corpo (dietas, atividades físicas, cirurgias plásticas), sua alimentação (transtornos alimentares), a bebida e outras drogas, os riscos de contaminação e acidentes, etc. O compulsivo pode adquirir hábitos como lavar as mãos insistentemente, checar várias vezes se a porta foi trancada ou se o gás foi desligado, organizar meticulosamente seus pertences ou objetos alheios de forma a deixar atividades importantes de lado ou prejudicar o convívio socio-familiar.

 

Pode ainda tornar-se consumista, viciar-se em trabalho, jogo, sexo, competições esportivas (a ponto de lesionar-se frequentemente ou recair em doping), comportamentos de risco, etc. Pensamentos repetitivos e ruminações mentais improdutivas podem surgir como uma variação do traço obsessivo-compulsivo e igualmente prejudicar a funcionalidade do indivíduo.

 

O que excede, o que é demais, o que saí do controle ou torna-se alvo de incansável controle deve sinalizar uma tristeza encoberta e portanto necessita de análise apurada e reflexão profunda.