Hábitos da Idade

 

Quem já não ouviu uma frase como essas: “Fulano está envelhecendo e ficando cheio de manias”. Você mesmo, se já entrou na era dos “enta” (quarenta, cinquenta…), nunca se percebeu com hábitos meio estranhos? Por outro lado, se observarmos os adolescentes, podemos perceber que eles fazem de tudo para estar no padrão, para serem parecidos com os demais, vestirem-se iguais, frequentarem os mesmo lugares, ouvirem o mesmo tipo de música, falarem as mesmas gírias, tipo… Querem se comportar de maneira uniforme dentro do grupo. Ao mesmo tempo, querem ser invisíveis e populares. 

 

Já nós, com idade suficiente para sermos pais dessas figuras, estamos na fase de completar a individuação, como diria Carl Gustav Jung. Atravessamos a etapa derradeira de tirar muitas máscaras, rever o sentido das coisas, reciclar hábitos, amizades e até mudar de profissão. Queremos menos peso nas costas, buscamos não gastar mais energia com certas frivolidades, com ações que demandem muita diplomacia, hipocrisia, ou mesmo que nos tirem do nosso estado iluminado de espontaneidade. Retomamos um certo caminho perdido, sem tantas demandas por aprovação, e nos bastando cada vez mais.

Como não nascemos iguais, isso quer dizer que, com a idade, tendemos a retornar à diferença, àquilo que nos faz únicos. Há quem chame isso de sabedoria, autoconhecimento ou mesmo de um despertar espiritual, quando o negócio é mais sério. Daí a gente pode entender as manias de velho, o moletom surrado que insistimos em usar para estar confortáveis, o jeito peculiar de arrumar ou decorar a casa, os verdadeiros rituais que praticamos antes ou depois de dormir, a barba que deixamos crescer por não ter mais saco de fazer todos os dias, o jeito de dispor os objetos na mesa de trabalho, enfim, os macetes da vida. E que isso não se confunda com o ficar ranzinza ou adquirir TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

 

A flexibilidade e a aceitação no convívio íntimo passam a ser cada vez mais importantes. O diferente tende a despertar julgamento e subestimação, porque essa é a forma de nosso ego se defender. Mas se entramos finalmente na fase de assumir nossas diferenças, essa também deve ser a fase de respeitar as diferenças dos outros, dos nossos contemporâneos, que também estão se individuando e se tornando únicos. Grande desafio, não é?