Antidepressivo

O antidepressivo é um adaptador aos entornos profissional, familiar, conjugal, social, político, ideológico e outros, para que você consiga ser o que esperam que seja, para que você se comporte e se adeque, tanto às normas instituídas, quanto à moral, a ética e até os costumes fabricadas pelo grupo ao qual pertence. Te faz aceitar também o sofrimento causado por sintomas físicos cronicificados por um estilo de vida errático; muitas vezes normótico. Lubrifica ainda as vias da aceitação para lhe fazer descer uma ocupação ou um trabalho valorizado pela sociedade ou pela família, mas que não se alinham com sua vocação, valores e vontade. Ainda assim, apesar de tudo isso, jamais interrompa o tratamento sem mergulhar fundo num processo de autoconhecimento, porque não basta estas palavras fazerem sentido para você. Psicoterapia, meditação, algumas técnicas de regressão e a vivência da espiritualidade sem dogmas podem fazer parte deste projeto.

 

Quem busca a verdade e está disposto a enfrentar seu problema pela raiz, prescindindo da medicação (que ajuda na crise mas também lhe embota a personalidade e obstrui a criatividade), mais cedo ou mais tarde se libertará de um destino que não é seu, enxergará possibilidades antes invisíveis e criará coragem para as mudanças possíveis. Dessa forma, é grande a probabilidade de se libertar dos psicofármacos; não só antidepressivos, mas ansiolíticos, estabilizadores de humor e até alguns antipsicóticos, desde que gradualmente, a médio e longo prazo, sempre com acompanhamento psiquiátrico e psicoterapêutico.

Crenças limitantes se dissolvem à medida que se reconhece, rememora, acolhe e resignifica vivências traumáticas, que podem ter sido pontuais ou sistematizadas por anos. Aqui se incluem práticas naturais à época e à cultura, mas nem por isso menos traumáticas. A identificação de algumas das nossas defesas psíquicas inconscientes geradas nesses períodos obscuros, que tanta energia nos subtrai e que se traduzem em padrões de comportamento, pode nos sinalizar que:

Aquilo que foi funcional ou adaptativo na infância e adolescência pode ter se tornado absolutamente disfuncional e limitante na adultidade.

Como exemplo, podemos citar a história típica do imigrante, que pela força da guerra ou da escassez, abandona sua terra e laços familiares. Pela demanda do momento, para se proteger, ele se enrijece afetivamente, para que não lhe corroam as saudades do que ou de quem deixou para trás. Torna-se também hiperabilitado ao trabalho duro, que lhe funciona tanto para esquecer os afetos como para tirar-lhe da pobreza. O que acontece é que, décadas depois, aquele padrão de comportamento, adaptativo e funcional no contexto anterior, pode persistir no novo cenário sem guerras, separações ou risco de escassez, e tornar-se um problema, por mais que não seja reconhecido como tal. Esse imigrante comumente se enrijece numa afetividade fria e distante, assim como na supervaloração do trabalho e do dinheiro em relação a outros aspectos da vida. São pessoas que normalmente tem dificuldade em desfrutar do que conquistaram e em aprofundar vínculos afetivos. Assim como os soldados que serviram em guerras e carregam distúrbios pós-traumáticos, os imigrantes em questão perdem a capacidade de relaxar e desfrutar; vivem uma certa ansiedade crônica. Não conseguem atualizar as novas condições às quais estão submetidos e muitas vezes perdem também a saúde física, desenvolvem hipertensão, diabetes e outros males crônicos.

O antidepressivo, no entanto, nem sempre se faz uma opção para todos esses casos. Muitos deprimidos não diagnosticados automedicam-se com álcool, tabaco e outras substâncias. Naturalizam esse comportamento compensatório como um prazer da vida. Podem se exceder (ou se desregular) também na comida, nas atividades físicas, no sexo, no jogo, nas compras ou no próprio trabalho. Identificar o excesso; o abuso, é ver o quanto isso prejudica outros setores da vida, ou mesmo, o quanto interfere negativamente nas pessoas que dele dependem. Saúde, trabalho, família, finanças, tudo pode ser afetado, mas também podem haver compensações secundárias que provocam distorções no entendimento da doença da depressão. Por exemplo; alguém que mascare suas tristezas com workaholismo, mesmo no caso de ser um arrogante e possuidor de extrema inabilidade social, pode estar constantemente cercado de companhias e ter “sucesso”, apenas pela sua condição financeira. Assim, ele pode ser visto como normal ou psiquicamente saudável. Raramente busca ajuda, mas não obstante, as pessoas que dele dependem são sobrecarregadas pelos seus sintomas.

 

Outro exemplo: Um beberrão falastrão pode ser considerado uma ótima pessoa, uma boa companhia eventual e até alguém feliz, mas um olhar apurado perceberá tristeza e timidez (autoconfiança débil) por trás da bebida, além do pavor ao silêncio por trás de tantas palavras. Excesso de fala denota excesso de defesas. A pessoa sente necessidade permanente em se justificar, em entreter, em ser legal, bom ou inteligente. Todos esses aspectos podem ser reconhecidos e portanto transformados através de autoconhecimento. Legal é adquirir consciência de modo que possa limpar a inconsciência, tornando-se consciente de quem se é e do que se quer.

 

A resistência às mudanças necessárias é vencida na positividade, quando se busca explorar potenciais pessoais e a plenitude da vida, ou na negatividade, quando se deixa a bola de neve crescer e dar vez a sintomas como ansiedade, depressão e seus múltiplos desdobramentos: isolamento social, pânico, fobias, vícios, compulsões, obsessões, psicossomatizações, insônia, etc. Infelizmente a motivação da maioria das pessoas que busca psicoterapia ainda é a insuportabilidade dos sintomas. Isso acontece por acomodação, desinformação e preconceito.