Distanciamentos familiares e reciclagens sociais produtivas

A vida de uma pessoa desapegada ofende aqueles que vivem presos a algemas de ouro, nos ciclos do acúmulo, apego, ostentação ou ganância. Ela pode chegar ao absurdo de desejar que você entre na escassez, e passe necessidade um dia, para que possa então a eles recorrer e dar razão. Estão acostumados a essa qualidade de meio social; família e “amigos” que dele dependem e alimentam seu ego, ou ainda, os que a ele recorrem eventualmente para pedir empréstimo, emprego, etc.

Do outro lado, a vida de uma pessoa livre ofende aqueles encarcerados em seus tabus, preconceitos e limitações. Da mesma

forma, a orientação sexual de um gay ofende o homofóbico e a autonomia de uma mulher emancipada ofende a que depende do marido. O conceito de “sombra”, cunhado por Carl Gustav Jung, ilumina bastante esse tema à medida que nos traz a idéia de um conteúdo tão desestabilizador que não pode ser assimilado pela consciência. O conteúdo da sombra exila-se então na inconsciência, para que possamos manter o equilíbrio mental, mas, ainda assim, esse conteúdo tem a característica de vazar eventualmente através de comportamentos inconscientes. Uma pessoa mais sensível ou observadora, mesmo leiga na área psi, fará uma boa leitura desses comportamentos. Todos nós temos as nossas sombras, elas são nossa proteção. Por isso odiamos no outro aquilo que muito queremos mas não conseguimos admitir nem para nós mesmos, de tão insuportável que seria essa autoconfissão.

 

Temos ainda, para explicar esses entraves, a idéia de superego de Freud. Segundo ele, o superego seria a nossa instância castradora, que se contrapõe ao ID, a instância do prazer e satisfação. O superego é construído na infância através de referências morais e qualquer tipo de negação, traumática ou sistemática, do gozo, prazer e satisfação. Internalizamos o “não” para muitas das nossas vontades, até que deixamos de reconhece-las como tal. Uma criação rígida é aquela que justamente nos faz esquecer os nossos desejos e vontades. Eles são então empurrados para a inconsciência mas não deixam de existir, por isso vazam eventualmente, como vaza o conteúdo da sombra. Portanto, atenção. O que muito nos ofende, nos causa implicância, antipatia ou ódio sem aparente explicação, normalmente tem raízes nas nossas sombras.

No contraponto da castração está a liberdade. O pior mal é aquele ao qual nos acostumamos e se torna invisível ao longo dos anos. Algumas pessoas são infelizes sem saber a causa, vivem uma angústia difusa, não possuem sonhos ou desejos e chegam a achar que a vida não vale a pena. Falar em depressão é também falar em liberdade ou da falta dela. O depressivo suicida é, em última instância, aquele que não vê possibilidades. Trata-se do oprimido, consciente ou inconsciente da sua opressão, cujas escolhas foram afuniladas. Quando se pode identificar o opressor, se pode lutar contra ele, mas na maioria dos casos, as repressões são internalizadas e naturalizadas desde a infância, o que torna o caminho de volta difícil. Daí o velho clichê do paciente que começa a fazer terapia e se volta contra os pais. Tratar a depressão é tratar do que nos limita, é abrir caminho para a liberdade de ser, é finalmente enxergar nossas incoerências e apegos em relação a um ideal de vida construído por outrem.

 

Presos a idealizações alheias sobre nossa personalidade, aparência e destino, construídas antes mesmo do nosso nascimento, já chegamos a esse mundo com boa parte da nossa força criativa e espontaneidade acorrentadas. A energia despendida para se adequar, corresponder ou ser aceito exaure psiquicamente o indivíduo ao longo dos anos. Ainda assim, pode se tornar irresistível o ato de querer agradar, principalmente quando se tratam de familiares, sobretudo na cultura latina. Assim, a pessoa termina deprimindo. Ela pode também ser tomada por ansiedade crônica ou seus derivativos. Quando adquirimos autoconhecimento, ocorrem insights em relação a todo esse processo. Isso justifica alguns afastamentos familiares e reciclagens sociais. A autoconfiança e o autorespeito acompanham esse amadurecimento e nos levam a afinizar finalmente com pessoas que nos aceitem, seja essa aceitação pelo respeito às diferenças, seja pela similaridade.